
Edson Viana
Quando começou a escrever a sua saga espacial, lá pela década de 70, George Lucas não deve ter imaginado a revolução que provocaria na cultura pop. Ou, como diria Ícaro de Paula, “pop corn”...
Taí um cara que pode bater no peito e dizer: eu inventei o filme-pipoca moderno, o cinema diversão, ou o seja lá o que for. Não é pouca coisa. Os intelectuais do blog podem questionar a qualidade artística dos filmes, as atuações, ou qualquer coisa. Mas não podem negar que, depois de “Star Wars”, Hollywood começou a fazer filmes de outra forma.
Imagine que, dez mil produtos licenciados e uns 3 bilhões de dólares de bilheteria depois, o cara resolveu que ia mostrar como tudo aquilo começou. Mexer em algo que, para muitos, era intocável. Que entrou no imaginário popular, que se tornou referência, estabeleceu parâmetros técnicos e tudo mais. Seria ele louco? Sim...
O simples idéia de fazer uma “prequel” já era inovadora. E foi criada, então, uma expectativa tão grande que dificilmente seria correspondida. E, a princípio, não foi.
Mesmo para os fãs mais ardorosos (e, acho, principalmente para eles) “A ameaça fantasma” foi uma catástrofe. O tom infantil, os diálogos pobres, nada funcionava. A decepção foi tão grande que prejudicou a receptividade ao bom “Ataque dos Clones”. Sim, Episódio 2 é um bom filme. Ainda que não esteja à altura da Trilogia Clássica. Mas ainda sim, digno. E com momentos de brilho, como o duelo de sabre entre Yoda e Conde Dooku.
O que esperar, então, do Episódio 3? Desde sempre, a parte mais aguardada, quando se explicaria a origem do maior vilão do cinema. E se, depois de tudo, o velho George resolvesse estragar justamente a cereja do bolo?
Dessa vez, ele não estragou. Não há nada infantil na tela. Aliás, com decapitações e chacina de crianças, o filme recebeu a censura mais alta da saga. Sem dúvida, o mais sombrio de todos.
“A vingança dos Sith” encaixa os elementos de forma tão clara e surpreendente que, só agora, podemos ter uma visão abrangente de toda a complexidade da saga. A engenhosa trama política de Palpatine é revelada. E, com isso, vemos como o Bem pode ser um instrumento nas mãos do Mal.
“O Bem é apenas uma questão de ponto de vista”. Com esta frase, o chanceler Palpatine começa a argumentação que vai levar Anakin Skywalker ao Lado Negro da Força. Ou em tempos de racismo, Lado Afro-americano da Força...
Descobrimos, logo em seguida, que um dos maiores vilões do mundo surgiu muito mais em função de seus bons sentimentos do que de suas ambições de poder: a vontade de salvar a vida de sua amada Padmé. E, com uma argumentação tão brilhante, Palpatine coloca qualquer um em dúvida, mesmo quem já conhece os propósitos nefastos do Lado Negro. Mesmo um herói. É usando o medo que Anakin tem de perder a amada que ele consegue isso. O velho Yoda já alertava no Episódio 1: “O medo é o caminho para o Lado Negro”... Humanos, sempre os humanos, tão cheios de contradições...
Outra boa sacada é o duelo entre Yoda e Palpatine justamente no Senado: uma metáfora interessante do fim da democracia. Ali, momentos antes, a senadora Padmé dizia: “Então é assim que a liberdade morre: debaixo de sorrisos e aplausos...”. Era o momento em que o chanceler se tornava Imperador, sob a justificativa de manter a paz. Uma mostra de como a retórica sedutora do totalitarismo pode destruir a liberdade sem que ninguém se dê conta disso.
São detalhes inusitados que preenchem as lacunas de forma genial. Mesmo que o filme apresente falhas. A atuação dos robôs é quase tão boa quando a de Hayden Christensen... O romance entre Padmé e Anakin é esquemático. Há clichês brabos, como o “Nããããão!” proferido por Darth Vader quando descobre que ela morreu. A direção é pobre, mas convenhamos: dirigir um filme em que não havia cenários físicos e metade dos personagens não estava no set é tarefa espinhosa...
Lucas, porém, é bem-sucedido em momentos emocionantes como a queda dos Jedi, com uma trilha belíssima de John Williams. Talvez o momento dramático mais intenso de todos os episódios. E no surgimento de Darth Vader, paralelo ao nascimento de Luke e Leia, com um close-up da máscara alucinante. Os cenários virtuais finalmente se tornaram convincentes e a diração de arte é belíssima. Ah, e ainda temos curiosidades bacanas, como um jovem governador Tarkin (interpretado por Peter Cushing em “Uma nova esperança”) aparecendo nos momentos finais. Também é curioso lembrar que a última fala do filme é pronunciada por C-3PO no corredor da nave de Bail Organa, justamente onde ele mesmo diz a primeira da Trilogia Clássica.
Não é exagero, portanto, dizer que “A Vingança dos Sith” se equipara a “O Império Contra-ataca” e entra para o rol dos melhores da saga.
Star Wars: Episódio 3 - A Vingança dos Sith *****
(Star Wars: Episode 3 - Revenge of the Sith, EUA/2005, 146min.)