Movie-Mestre

Para os amigos e inimigos da Sétima...

domingo, janeiro 01, 2006

Os melhores da temporada 04/05 para o Mestre

Old Boy
Menina de Ouro
Batman Begins
Sin City
Flores Partidas
Cinema, Aspirinas e Urubus
A Noiva Cadáver
A Queda
Uma História da Violência
O Jardineiro Fiel

sexta-feira, julho 29, 2005

Sin City



Gostei ****
Mariano L.B

Em abril o Movie-Mestre abriu espaço para o correspondente da Folha de São Paulo, Sérgio D’ávila. E ficou a pergunta com um título de “Será”.
“Na Califórnia "Sin City" é um marco. A cada punhado de anos, Hollywood produz um filme-marco, que influenciará os próximos títulos do gênero e será imitado à exaustão. Para ficar apenas nas décadas recentes, "Guerra nas Estrelas" inventou o blockbuster de verão baseado em efeitos especiais, "Blade Runner" mudou a ficção científica, "Pulp Fiction" reinventou a estrutura do roteiro, "A Bruxa de Blair" redefiniu o conceito de terror e "Matrix" juntou tudo isso e foi além. Agora, é a vez de "Sin City", que estréia nesta sexta nos EUA e chega em maio ao Brasil....”
Sin City acabou chegando em julho ao Brasil e a pergunta já tem algumas respostas. O filme é bom. Se vai ter imitadores e virar referência estética na publicidade? Também é bem provável.
Heróis e vilões pré Sin City deixavam as revistas para freqüentar as telas em bons e maus filmes. Os quadrinhos visitavam o cinema. Agora é diferente. O cinema dá uma voltinha nas bancas e livrarias. Nem é preciso ser especialista para perceber. Nos diálogos, gestos, narração em off e principalmente nos enquadramentos.
São histórias independentes que se cruzam em algum momento, dirigidas no croma e acertadas na edição. Ficou ótimo, mesmo dando uma cansada lá pelo meio. A tecnologia evoluiu para a sorte do nerd-cowboy Rodriguez.
O elenco bem escolhido pela proposta desta cidade do pecado é mais um mérito do diretor, que como seu amigo Tarantino, tem a tradição de resgatar o fóssil Mickey Rourke (ele está ótimo), dar uma segurada na decadência de Bruce Willis e ainda aproveitar o momento de Clive Owen e Jessica Alba.
Falando em Tarantino, ele aparece nos créditos como diretor convidado. Não se sabe que momento do filme tem a sua mão. Deve ser no massacre de espadas ninja na segunda história. Uma cena desnecessária por sinal.
Sin City vai marcar, sim. Gostem pouco ou muito. Rodriguez e Miller arriscaram.
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Gostei um pouco **
Eduardo Mendonça

Os volumes encadernados, novinhos, chamando nenhuma atenção na livraria do novo complexo de cinemas da cidade, deram a primeira pista - havia se passado muito tempo desde que li Sin City, do mestre Miller, numa época em que gente como eu deixava uma boa parte de sua grana nas bancas de jornal. Será que ainda acharia a trama tão chocante? Teria a transposição do papel para a tela grande tirado o charme noir das histórias?
Não sou fã de pré-estréias. Mas há tanto tempo tantos tentam filmar Sin City... eu precisava descobrir quais os motivos para o sim do mestre Frank a Robert Rodriguez, depois de ter dito não até mesmo para Spielberg. A resposta é simples - fidelidade. Rodriguez repetiu cada ângulo pensado por Miller. É o grande barato do filme, que já foi chamado até de "revolução cinematográfica" por alguns. Menos, menos... o truque da filmagem digital, do uso do fundo verde, hoje parecem coisa que sempre fez parte do cinema, infelizmente. Outro artifício usado pela dupla Rodriguez/Miller foi tomado emprestado de Tarantino, "diretor convidado" do filme - as quatro histórias, separadas por um tempo que chega a oito anos, convergem para uma mesma noite, como em Pulp Fiction, em que tudo é também entrelaçado. Para quem não leu, a ausência de cor e a violência exacerbada chamam mais atenção que algumas cenas sensacionais, como aquela em que Marv, o personagem do irreconhecível Mickey Rourke, arrasta a cara de um criminoso no chão com um braço, enquanto dirige com outro. Pura HQ.
Além de Rourke, perfeito na pele do assassino que sente prazer no ato de torturar, há Bruce Willis, bem na pele do policial Hartigan, e Clive Owen, ele mesmo, referência viva do universo trash como o detetive Dwight. E ainda Jessica Alba, bela como sempre mas perdida como nunca como a prostituta Nancy.
Li que Frank Miller ficou satisfeito com o resultado e vai dirigir sozinho a sequência. Legal. Mas não acredito que ela me leve a outra pré-estréia.

Sin City - A Cidade do Pecado
(Sin City, EUA/2005, 124min)

sábado, julho 23, 2005

"Desnecessário"



C.Gil

Nove Canções é um filme desnecessário. Ainda que tenha números musicais de qualidade, com Franz Ferdinand, Super Furry Animals e outras bandas cool, é desnecessário. O diretor Michael Winterbottom não precisava disso. Logo ele, celebrado tão justamente por "A Festa Nunca Termina", um excelente retrato da cena roqueira de Manchester nos anos 80. Nove Canções não sabe o que retrata. Um casal desajustado ? O relacionamento que não se sustenta só pelo sexo ? A solidão acompanhada ? O que é Nove Canções ? Só cheguei a uma conclusão: é tão somente um filme pornô embalado como um "filme Estação", um "filme cabeça". Poucos e previsíveis diálogos "fofos" para parecer que havia alguma intenção de falar de amor. Não, o filme não é de amor. O filme é uma sacanagem. Com todos nós, com os atores que se sujeitam a cenas de uma baixaria nua e crua inexplicável. O cinema para chocar, infelizmente, vai ganhando espaço.
A cena de estupro de "Irreversível", a felação de "Brown Bunny", o sexo explícito de "9 Canções". Tudo isso serve para que ? Para provar que pode-se fazer tudo no mundo capitalista da liberdade de expressão ? É bom ter liberdade para se expressar. E melhor ainda ter algo interessante a dizer. Mostrar um casal praticando sexo em cenas que não se justificam a não ser para quem assina o Sexy Hot não faz o menor sentido. Incomoda mas não de uma maneira positiva. Não provoca questionamentos, discussões e, do jeito que o filme irrita, nem ereções ! (peitito fraquito da protagonista). No fim da projeção fica-se com a impressão de que só faltou uma coisa a "9 Canções": uma cena de sexo anal. Para que se assumisse, por completo, como um pornô. Pelo menos seria mais honesto com o espectador. Nove Canções é um dos maiores "gatos-por-lebre" da história recente do cinema pseudo-cabeça. Para quem ficou interessado só pela putaria, na boa, o canal 62 é mais competente a partir da meia-noite e meia.

Nove Canções
(9 Songs, Ing/2004, 67min)

quinta-feira, julho 21, 2005

Par-ou-ímpar dos mundos


Edson Viana

Quando vi a primeira notícia de que esse filme seria feito, me perguntei: pra quê, Spielberg?... Negócio de filme catástrofe de ET destruindo tudo?... De novo?....
A proposta dele era fazer algo mais sério do que a patriotada carnavalesca de “Independence Day”. E realmente filme é um pouco mais dark. Bem, tão dark quanto um filme do sentimentalista Spielberg consegue ser. Ideologicamente, pode-se fazer um paralelo com o momento paranóico vivido nos EUA. E até em uma cena a filha de Tom Cruise pergunta: “São os terroristas, papai?” Elementos que atualizam a história de H.G. Wells, já datada do século retrasado.
O ponto forte do filme, como sempre, é o espetáculo visual. Spielberg foge do artifício muito usado atualmente de uma edição nervosa e recortada, usando planos-seqüência longos, o que traz credibilidade, lembrando algo documental, como ele gosta de fazer.
Legal também a fotografia, sempre um pouco estourada, suja, até granulada, caótica, como o momento vivido pelas personagens.
Mas tirando isso, não há nada realmente impressionante. Mesmo a escala das catástrofes não é grandiosa. Tudo bem, o diretor quis fazer um filme “pequeno”, mostrando o desespero particular de uma família em meio ao ataque. Mas acaba sendo apenas uma fuga sem fim, sem muita aproximação do público com as pessoas que este vê na tela, algo que Spielberg sempre fez muito bem. Não emociona. O moleque é chato, Tom Cruise só resmunga e corre. Dakota Fanning, a menina, é a melhor atuação.
E mesmo o caráter violento da invasão é maquiado. O mesmo diretor que mostrou um dinossauro comendo um advogado, vísceras de soldado na Segunda Guerra e pilhas de corpos empilhados num campo de concentração desta vez afrouxou... esconde os aliens sugando sangue dos humanos atrás de escombros, e só mostra corpos em uma cena, meio de longe. Deixou pra lá a morte de um bilhão de pessoas... parece que não queria chocar mesmo. Tão excitante quanto ver um par-ou-ímpar...
A resolução da invasão, que muita gente pode achar anti-clímax (e é um pouco mesmo) pelo menos não é muito clichê. Ou patriota, como o presidente salvando o mundo.
O final não vou nem comentar...
Mas é um filme do Spielberg... mesmo um filme médio dele é muito melhor que a média. O problema, quando se trata dele, é que as expectativas são sempre muito altas...
Resta esperar o próximo. Este sim, interessante, sobre o ataque terrorista nos Jogos de Munique.

Guerra dos Mundos ***
(War of the Worlds EUA/2005, 116min)

quinta-feira, junho 23, 2005

Um bom começo



Ricardo Jácomo

O filme não poderia mesmo ter outro título. Batman Begins leva quase uma hora até que o Cavaleiro das Trevas apareça e fale o clássico "I´m Batman". Dito assim parece que é um cansativo caminho até lá, mas o tempo passa rápido enquanto se mostra a metamorfose do violentamente órfão Bruce Wayne em homem-morcego. E antes mesmo de vestir a roupa do herói, Christian Bale já convence como um atormentado em busca de rumo. Medo, escuridão, vingança, justiça e crime são as palavras que ecoam na mente perturbada do menino milionário que perdeu os pais cedo e vai aos lugares mais longínquos do mundo e da consciência no doloroso processo de formação do personagem.
O diretor Christopher Nolan colecionou acertos. Começando pelo elenco com Morgan Freeman, Rutger Hauer, Michael Caine, Liam Neeson, Gary Oldman e a bonitinha Katie Holmes. Os atores está ao nível da criatura quase septuagenária de Bob Kane. E no meio dessa gente toda o desconhecido (para mim) Cillian Murphy (Dr. Jonathan Crane) consegue se destacar com uma belíssima atuação.
Nolan fez muito bem em buscar vilões mais obscuros como Ras Al Gul e Espantalho para fugir da lembrança dos outros quatro filmes já feitos com o personagem título. Solidamente construída no imaginário coletivo dos fãs dos quadrinhos, a fria e escura Gotham City está fielmente retratada. E o asilo Arkham também é um trunfo da película. A edição das brigas foi feita de maneira a causar no espectador a confusão que Batman faz na cabeça dos criminosos. Tomadas fechadas, cortes rápidos e às vezes você fica sem saber de onde vem o golpe. Pode incomodar alguns, mas é corente com o conceito do filme. Os efeitos especiais funcionam muito bem e assustam. As frases que se alternam em bocas diferentes no roteiro bem encaixado são outra coisa que joga a favor, os momentos de playboy inconseqüente de Bruce Wayne também. E é claro, os obrigatórios e incontáveis morcegos.
A necessidade holywoodiana de lucrar incomoda um pouco no fim, não precisava dar a deixa para a continuação de forma tão explícita. Mas para eles isso faz parte do negócio e o filme não fica manchado por isso.
O grande diferencial acaba mesmo sendo Christian Bale, que conseguiu captar o espírito do Batman como nenhum outro ator tinha feito até então. Os dois últimos filmes (Batman Eternamente e Batman e Robin) são para ficar no esquecimento ou para servir de exemplo do que não deve ser feito. Já escolher entre Tim Burton, o diretor dos dois primeiros filmes (Batman e Batman o Retorno) e a obra recém-lançada de Christopher Nolan me parece apenas uma questão de (bom) gosto. Ambos conseguiram mostrar Batman e seu universo assim com Bob Kane imaginou nos quadrinhos. Mas a distância entre o Beetlejuice Michael Keaton e Christian Bale é que faz com que Batman Begins seja o melhor exemplar entre os até agora cinco filmes com o nome do herói.

Batman Begins ***
(Batman Begins/2005/EUA, 120min)

quinta-feira, junho 09, 2005

Pra quem gosta de Woody Allen



C.Gil

Críticos e locadoras costumam dividir os filmes em categorias. Você vai até a prateleira da Blockbuster e escolhe: "Drama", "Policial", "Comédia", "Lançamento" ou, quando querem te dar uma facada, "Super Lançamento". Deveria haver uma gôndola com "Woody Allen". Filmes de Woody Allen são comédias, a priori. Mas, sobretudo, são filmes de Woody Allen. Assim é "Melinda e Melinda".
É de exaltar a performance da Melinda - ou das Melindas, principalmente a Melinda neurótica, chaaaaata e mal resolvida - ambas interpretadas por Radha Mitchell. A lourinha é o ponto alto do filme que tem argumento interessante: a vida estaria em qual prateleira das locadoras ? Comédia ou Drama (no caso, Tragédia, como preferem os autores da pergunta batendo papo em um café nova-iorquino).
E assim Allen desenvolve duas histórias paralelas, de duas mulheres, duas Melindas, uma cômica, outra trágica. E se o argumento é interessante, o desenrolar da história, nem tanto. Woody Allen, dessa vez, fica apenas por trás das câmeras. No entanto, ele está lá, na pele de Will Farrell. O mesmo cara meio psicótico, falastrão, o desastrado engraçado, o "sujeito-que-só-se-fode" mas é legal. Acaba sendo o personagem mais engraçado...para quem curte o personagem. Mais do Mesmo. Mesmo de sempre. E a mesmice é o problema e, ao mesmo tempo, o fascínio de "Melinda e Melinda".
É filme para amantes do gênero. Do gênero "Woody Allen". Não surpreende, repete-se. Quem vai ao cinema querendo ver Woody Allen ri, mata saudades, até lamenta a ausência daquela figura do típico "loser" representada pelo diretor enquanto ator. Quem vai ao cinema querendo ver algo novo, daí......sei não. Mas alguém que não gosta do Woody ainda vai ao cinema ver um filme dele ? E ainda espera algo novo ? Bah ! então não reclama...já deveria saber o que iria encontrar.
Eu gosto dele. Fui. Ri. Esqueci. Se tivesse visto no Telecine Emotion só sentiria falta mesmo do cheirinho de pipoca na porta do cinema.

Melinda e Melinda **
(Melinda and Melinda/EUA/2004, 99min)

Sobrevivendo no inferno



Ricardo Jacomo

Existem lugares maravilhosos para as férias, mas morar neles seria um inferno. Os Lençóis maranhenses ainda são assim hoje. Em 1910 então a região era totalmente inóspita e não tinha os atrativos do turismo (caro!) de hoje em dia. Mas o danado do Vasco (tinha que ser!) quis ir para esse buraco com a mulher Áurea e a sogra. Para piorar ele emprenhou a cônjuge e ainda inventou de morrer deixando as duas, mais a criança na barriga, ao Deus dará.
O filme protagonizado pelas Fernandas (a mãe Montenegro e a filha Torres) mostra a luta de três gerações contra as dunas que invadem casas, sol e vento eternos e o desejo não realizado de abandonar aquele lugar. A tragédia aparece, a História acontece, o progresso vem, o amor brota, mas ninguém se desatola da areia.
A narrativa é lenta, os diálogos são econômicos, condizentes com a aridez do lugar. As panorâmicas e as grandes tomadas abertas daquela imensidão de areia conseguem transmitir o sofrimento das personagens em um lugar que à primeira vista parece um paraíso. Tecnicamente deve ter sido difícil filmar com tanta luz e tanto branco para todos os lados. Pragmatismos à parte, a fotografia de Ricardo Della Rosa é belíssima, merece elogio (mereceria muitas esculhambações se ele conseguisse fazer um trabalho ruim com aquelas paisagens).
A bela cena de sexo entre Fernanda Torres e Seu Jorge lembra os lendários outdoors da Benetton pelo contraste entre a cor da pele dos dois. O filme mostra como o universo é cíclico. E como podemos nos adaptar aos piores lugares, nos acomodar às piores situações e ainda assim enxergar felicidade. Mas sempre há um redentor.

Casa de Areia ***
(Brasil/2005, 103min)

quarta-feira, junho 01, 2005

Star Wars: Episódio 3 - A Vingança dos Sith



Edson Viana

Quando começou a escrever a sua saga espacial, lá pela década de 70, George Lucas não deve ter imaginado a revolução que provocaria na cultura pop. Ou, como diria Ícaro de Paula, “pop corn”...
Taí um cara que pode bater no peito e dizer: eu inventei o filme-pipoca moderno, o cinema diversão, ou o seja lá o que for. Não é pouca coisa. Os intelectuais do blog podem questionar a qualidade artística dos filmes, as atuações, ou qualquer coisa. Mas não podem negar que, depois de “Star Wars”, Hollywood começou a fazer filmes de outra forma.
Imagine que, dez mil produtos licenciados e uns 3 bilhões de dólares de bilheteria depois, o cara resolveu que ia mostrar como tudo aquilo começou. Mexer em algo que, para muitos, era intocável. Que entrou no imaginário popular, que se tornou referência, estabeleceu parâmetros técnicos e tudo mais. Seria ele louco? Sim...
O simples idéia de fazer uma “prequel” já era inovadora. E foi criada, então, uma expectativa tão grande que dificilmente seria correspondida. E, a princípio, não foi.
Mesmo para os fãs mais ardorosos (e, acho, principalmente para eles) “A ameaça fantasma” foi uma catástrofe. O tom infantil, os diálogos pobres, nada funcionava. A decepção foi tão grande que prejudicou a receptividade ao bom “Ataque dos Clones”. Sim, Episódio 2 é um bom filme. Ainda que não esteja à altura da Trilogia Clássica. Mas ainda sim, digno. E com momentos de brilho, como o duelo de sabre entre Yoda e Conde Dooku.
O que esperar, então, do Episódio 3? Desde sempre, a parte mais aguardada, quando se explicaria a origem do maior vilão do cinema. E se, depois de tudo, o velho George resolvesse estragar justamente a cereja do bolo?
Dessa vez, ele não estragou. Não há nada infantil na tela. Aliás, com decapitações e chacina de crianças, o filme recebeu a censura mais alta da saga. Sem dúvida, o mais sombrio de todos.
“A vingança dos Sith” encaixa os elementos de forma tão clara e surpreendente que, só agora, podemos ter uma visão abrangente de toda a complexidade da saga. A engenhosa trama política de Palpatine é revelada. E, com isso, vemos como o Bem pode ser um instrumento nas mãos do Mal.
“O Bem é apenas uma questão de ponto de vista”. Com esta frase, o chanceler Palpatine começa a argumentação que vai levar Anakin Skywalker ao Lado Negro da Força. Ou em tempos de racismo, Lado Afro-americano da Força...
Descobrimos, logo em seguida, que um dos maiores vilões do mundo surgiu muito mais em função de seus bons sentimentos do que de suas ambições de poder: a vontade de salvar a vida de sua amada Padmé. E, com uma argumentação tão brilhante, Palpatine coloca qualquer um em dúvida, mesmo quem já conhece os propósitos nefastos do Lado Negro. Mesmo um herói. É usando o medo que Anakin tem de perder a amada que ele consegue isso. O velho Yoda já alertava no Episódio 1: “O medo é o caminho para o Lado Negro”... Humanos, sempre os humanos, tão cheios de contradições...
Outra boa sacada é o duelo entre Yoda e Palpatine justamente no Senado: uma metáfora interessante do fim da democracia. Ali, momentos antes, a senadora Padmé dizia: “Então é assim que a liberdade morre: debaixo de sorrisos e aplausos...”. Era o momento em que o chanceler se tornava Imperador, sob a justificativa de manter a paz. Uma mostra de como a retórica sedutora do totalitarismo pode destruir a liberdade sem que ninguém se dê conta disso.
São detalhes inusitados que preenchem as lacunas de forma genial. Mesmo que o filme apresente falhas. A atuação dos robôs é quase tão boa quando a de Hayden Christensen... O romance entre Padmé e Anakin é esquemático. Há clichês brabos, como o “Nããããão!” proferido por Darth Vader quando descobre que ela morreu. A direção é pobre, mas convenhamos: dirigir um filme em que não havia cenários físicos e metade dos personagens não estava no set é tarefa espinhosa...
Lucas, porém, é bem-sucedido em momentos emocionantes como a queda dos Jedi, com uma trilha belíssima de John Williams. Talvez o momento dramático mais intenso de todos os episódios. E no surgimento de Darth Vader, paralelo ao nascimento de Luke e Leia, com um close-up da máscara alucinante. Os cenários virtuais finalmente se tornaram convincentes e a diração de arte é belíssima. Ah, e ainda temos curiosidades bacanas, como um jovem governador Tarkin (interpretado por Peter Cushing em “Uma nova esperança”) aparecendo nos momentos finais. Também é curioso lembrar que a última fala do filme é pronunciada por C-3PO no corredor da nave de Bail Organa, justamente onde ele mesmo diz a primeira da Trilogia Clássica.
Não é exagero, portanto, dizer que “A Vingança dos Sith” se equipara a “O Império Contra-ataca” e entra para o rol dos melhores da saga.

Star Wars: Episódio 3 - A Vingança dos Sith *****
(Star Wars: Episode 3 - Revenge of the Sith, EUA/2005, 146min.)

Boa noite, dia...



Fellinibone

O sonho acabou. Para muitos é mentira deslavada da direita. Para outros tantos, acabou mesmo e o que impera é a revolução individual. Fazer o bem ao vizinho é melhor do que a luta de classes. Para os vizinhos, principalmente. Os sonhadores de Bertolucci mostram uma Paris antiga, de revoluções sociais e pessoais. Adeus, Lenin expôs a verdade única: de que não há verdade em lado algum, apenas o olhar e o bem-querer do idealista. E "Bom dia, noite", do italiano Marco Belochio?
A minha infância, além dos Thunderbirds, foi repleta de flashes do JN e Fantástico. Num deles, freqüente, mostrava um tal Aldo Moro, que era um moço importante num país chamado Itália. E tinha umas Brigadas Vermelhas, que não eram nem time nem torcida de futebol. Esse moço aparecia numa foto com uma estrela atrás. Pois é, o seqüestro do primeiro-ministro democrata-cristão foi revisto agora do ponto de vista de um personagem hipotético. A única mulher da célula responsável pelo rapto.
Maya Sansa. Linda, linda. Mulher de museu. Daquelas que perambulam sozinhas os corredores do MAM, Masp, Júlio de Castilho, Margs, Orsay ou Moma. E tomam um cafezinho lendo um livro de arte na lanchonete do jardim. Ela interpreta Chiara, que é o alterego do diretor. Belochio quis mudar o mundo aos 17 anos. Como todo homem ou mulher de caráter quis. Decepcionou-se com os meios da esquerda radical. O desfecho do seqüestro o marcou profundamente. O filme, dramaturgicamente, é muito bom. Enclausura o espectador no apartamento que serviu de cativeiro. Divide os dramas, a trama e os traumas dos seqüestradores. Há discussões sutis e mastodônticas sobre a "causa". E uma interpretação livre de que o Estado incompetente e imobilizado durante 55 dias torcia pela desgraça geral. Assim, a opinião pública italiana inverteria de vez, relegando aos revolucionários apenas o ódio da classe média assustada.
Num país estilhaçado por berros e paixões, o filme peca ao condenar o sonho da mudança, mas acerta em cheio ao mostrar ao mundo que o seqüestro de Aldo Moro mudou este mesmo mundo. Mas é preciso ler antes. O roteiro não é didático e deixa furos propositais, oníricos e poéticos. Como é cada vez menor o tempo contemporâneo da reflexão, são duas horas valiosas para pensarmos.

Bom Dia, Noite ***
(Buongiorno, Notte, Itália/2003, 106min.)